Narcoditadura: o caso Tim Lopes

Passados doze anos, a história de Tim Lopes, contada pelo jornalista Percival de Souza no livro Narcoditadura, segue atual, visto que pouquíssimas coisas modificaram-se na conjuntura catastrófica da segurança pública no Brasil. 

Percival foi atrás de uma temática que algumas pessoas sabem a fundo e como consequência apresenta um livro com o DNA do narcotráfico no nosso país. Como são os tentáculos do autoritarismo que o mercado das drogas nos determina, expondo a verdade nua e crua. 

O autor, utiliza mecanismo narrativos e estilísticos que fortificam a trama, surpreende o leitor, causam indignação e reflexão. O assassinato provocou repercussão internacional, recebeu destaque especial em jornais, revistas, sites e, também, na televisão.  

A obra se reveza entre o factual, que faz parte do diário, e o aprofundamento esporádico. Insatisfeito com o que leu sobre o caso de Tim Lopes, Percival faz uma remontagem dos fatos e potencializa sua indignação.  

Não há aproximação com a literatura, porém, Narcoditadura humaniza os personagens, sendo possível a reconstrução da história no imaginário. Além disso, Percival proporciona um dialogo com o “Novo Jornalismo”, reconstruindo a história cena a cena, registrando diferentes pontos de vista e principalmente, a simbologia dos personagens.


Tim Lopes era jornalista da Rede Globo de Televisão, tinha 51 anos, 30 anos de profissão.

Trechos do livro Narcoditadura 


Deram-lhe tiros nos pés, para não haver a menor possibilidade de fugir. As mãos estavam amarradas para trás quando Arcanjo foi colocado dentro do porta-malas de um carro pequeno e levado imediatamente à presença do bandido-chefe do bando que controla drogas, armas, munições, tráfico, consumo e prazeres que ignoram as leis e códigos. Para ele, Arcanjo era um intruso, um inimigo. O bandido improvisou a composição de um tribunal, em tom solene. A pena de morte foi votada e aprovada. O bandido, chefe e julgador, decidiu também ser carrasco. Armou-se com um punhal para abrir o tórax de Arcanjo, golpeando-o seguida e furiosamente. O sangue espirrou para todos os lados, tingindo de vermelho a roupa dos fieis seguidores do bandido, Antes, as pernas – as duas pernas – haviam sido cortadas, vagarosamente, para prolongar o sofrimento, e o Arcanjo, amarrado, rolava de dor pelo chão, gritando que nunca mais faria reportagem desse tipo, que sendo libertado deixaria o Brasil para nunca mais voltar. Depois, o resto do corpo foi sendo cortado. Um dos bandidos presentes sentiu repugnância da fúria dos açougueiros de carne humana, quis afastar-se do inferno onde haviam enfiado o Arcanjo, mas Elias Maluco segurou-o: “Bandido que é bandido tem que olhar!”. O grande chefe mandou um dos cúmplices comprar gasolina e óleo diesel. Tirou uma nota de 50 reais do bolso e entregou-a ao escolhido para compra, recomendado que fosse rápido. O bandido mandou o cúmplice comprar querosene”. Esquartejado, o que restou de Arcanjo foi transportado para um pequeno buraco entre pedras. Os assassinos já estavam acostumados. Chamavam debochadamente esse buraco de “micro-ondas”, referindo-se a ele como se fosse forno. As partes do corpo arderam nas chamas. Quando estavam calcinadas, fumegantes, um dos bandidos aproximou-se, sorridente e feliz com o poder do bando senhor da vida e da morte, e acendeu um cigarro nas brasas humanas. Tragou prazerosamente. (SOUZA, 2002, p.9, p.10).

Trailer do filme "Histórias de Arcanjo - Um documentário sobre Tim Lopes", feito por Bruno Quintella, filho do jornalista assassinado em junho de 2002.



PERCIVAL DE SOUZA 


Percival de Souza nasceu em Braúna (SP) e é um dos maiores e mais reconhecidos jornalistas brasileiros, tendo se especializado em assuntos criminais e de segurança pública. Trabalhou em importantes jornais do Brasil, incluindo o extinto Jornal da Tarde, do qual foi um dos fundadores. Escritor com quase 20 livros publicados, e ganhador do prêmio Esso de Jornalismo. Atualmente é um dos apresentadores da Rede Record de TV.


Foto: Assembléia Legislativa de São Paulo

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