domingo, 19 de junho de 2016

Almas quebradas

Almas se quebram. Nós nos quebramos. Quando eu era menina acordava assustada. Pesadelos sempre me acompanharam com amigos imaginários, fosse noite ou fosse dia. Aprendi, ainda na época em que não precisava de celular para me acordar, que o beijo de minha mãe era o mais doce alarme de despertar, porém havia dias doentes. Nesses dias, que não tinha doenças, mas dor. Eram dias que sangravam. Eram os dias cinza. Os dias tristes para minha mãe. Aqueles que não haveria história antes de dormir, nem mini bolinho, ou as suas canções. Mamãe ficaria silenciosa. Lábios finos cerrados. Cabelos ondulados despenteados. Eram dias que ela não tinha vontade de cozinhar ou regar as flores.
O céu ficava cinza e ela também. Eu, ao contrário dela, era e ainda sou encantada pelo singelo acinzentado. Eu demorei a entender. Quem sabe eu não intenda ainda. Eu só sabia que aqueles dias seriam tristes, que ela não ficava feliz e que se batom cintilante ficaria no guarda-roupa. Eu não compreendia o porquê da alma de mãe ser quebrada. Contudo eu sabia que doía. Só queria a ajudar aliviar aquela, que tanto amava mas não sabia como.
Hoje minha mãe achou belo o dia. Talvez fosse pela cintilância do batom rosa bebê em seus lábios, mas a sua alma ainda está quebrada. E eu, só queria saber como colar cada caquinho que ela foi feita, pra deixa-la inteira e com vontade de regar as plantas e cantar suas músicas antigas.
Minha mãe tem uma doença conhecida como mal do século. A depressão, que segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), atinge 121 milhões de pessoas no mundo.  O Brasil ocupa o primeiro lugar no ranking da doença de países desenvolvidos. Por ser uma doença silenciosa e não apresentar marcas visíveis, pode ser confundida com tristeza. Não sou nenhuma especialista no assunto, nem falei com profissionais sobre, mas convivi e convivo (ainda) com a doença entre meus amigos e familiares. Depressão tem cura, mas precisa de tratamento.  

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